O Juízo Final
a. A Doutrina do Juízo Final na História
Desde os mais primitivos tempo da era cristã, a doutrina de um juízo geral e final esteve ligada à da ressurreição dos mortos. A opinião geral era que os mortos ressuscitariam para serem julgados segundo as obras praticadas enquanto no corpo. Esta doutrina já fazia parte do conteúdo da Confissão Apostólica: “donde virá para julgar is vivos e os mortos”. A idéia predominante era que esse juízo seria acompanhado pela destruição do mundo. De modo geral os pais da igreja não especulavam muito acerca da natureza do juízo final.
Na idade média, os escolásticos discutiam o assunto com maiores minúcias. Eles também acreditavam que a ressurreição nos mortos seria seguida imediatamente pelo juízo geral, e que este marcaria o fim dos tempos para o homem. O juízo será geral no sentido de que todas as criaturas racionais comparecerão nele, e de que trará uma revelação geral dos feitos de cada um, tanto dos bons como dos maus. Cristo será juiz, embora outros estejam associados a Ele no julgamento; não, porém, como juízes no sentido estrito da palavra. Imediatamente após o juízo, haverá uma conflagração universal.
Os reformadores compartiam essa idéia, em geral, mas pouco ou nada acrescentaram ao conceito predominante. O mesmo conceito se acha em todas as confissões protestantes, as quais afirmam explicitamente que haverá um dia de juízo no fim do mundo, mas não entram em detalhes.
b. A natureza do Juízo Final
O juízo final do qual a Bíblia fala não se pode ser considerado como um processo espiritual invisível e infindável, idêntico à providência de Deus na história. Isto não equivale a negar o fato de que há um julgamento de Deus nas vicissitudes de indivíduos e nações. A Bíblia nos ensina que, ainda na presente vida, Deus visita com castigos e recompensa o bem com bênçãos (Dt 9:5; Sl 9:16; Pv 11:5; Is 32:16; Lm 5:7). Mas também é manifesto na Escritura que os juízos de Deus no presente não são finais. Às vezes o mal prossegue sem a devida punição, e o bem nem sempre é recompensado nesta existência com as bênçãos prometidas. A Bíblia nos ensina a ter os nossos olhos postos no futuro, no juízo final, vendo neste a resposta decisiva de Deus para todas as interrogações, a solução de todos esses problemas e a remoção de todas as discrepâncias aparentes da era atual (Mt 25:31-46; Jo 5:27-29; At 25:24; Rm 2:5-11; Hb 9:27; II Pe 3:7; Ap 20:11-15). Estas passagens não se referem a um processo, mas, sim a um evento bem definido do fim dos tempos. Ele é descrito como acompanhado por outros eventos históricos, tais como a vinda de Jesus Cristo, a ressurreição dos mortos e a renovação de céus a terra.
c. Conceitos Errôneos a Respeito do Juízo
c.1 É Um Juízo Puramente Metafórico
De acordo com Schleiermacher e muitos outros eruditos alemãs, as descrições bíblicas do juízo final devem ser entendidas como indicações simbólicas do fato de que o mundo e a igreja finalmente se separarão. Esta explicação serve para fazer evaporar toda a idéia de um julgamento forense quanto à determinação pública do estado final do homem. É uma explicação que certamente não faz justiça às vigorosas afirmações da Escritura a respeito do juízo final, de que será uma declaração formal, publica e final.
c.2 É Um Juízo exclusivamente Imanente
A máxima de Schelling, de que “a história do mundo é o julgamento do mundo”, sem dúvida contém um elemento de verdade. Sem dúvida, há manifestações da justiça retributiva de Deus na história das nações e dos indivíduos. Mas quando muitos eruditos dizem que o juízo de Deus é inteiramente imanente determinado pela ordem moral do mundo, certamente não fazem justiça às apresentações da Escritura. Esta teoria destrói completamente a idéia do juízo como um eevnto externo e visível a ocorrer nalgum tempo definido no futuro.
c.3 O Juízo Não Será Um Só Evento
Os pré-milenistas dos nossos dias falam de três diferentes juízos futuros. Eles distinguem os seguintes:
i. Um juízo para os santos ressurretos e para os antos vivos, quando a parousia ou da vinda do Senhor.
ii. Um juízo por ocasião da revelação de Cristo (no dia do Senhor), imediatamente após a grande tribulação.
iii. Um julgamento dos ímpios mortos, perante o grande trono branco (Ap 20:11-15).
Contudo, devemos notar que a Bíblia sempre fala do juízo futuro como um só evento. Vejamos:
i. Ela nos ensina a guardar, não dias, mas o dia do juízo (Jo 5:28,29; At 17:31; II Pe 3:7), também chama “aquele dia” (Mt 7:22; II Tm 4:8), e “o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus” (Rm 2:5).
ii. Alem disso, há passagens da Escritura que evidenciam abundantemente que os justos e os ímpios comparecerão juntos no juízo para uma separação final (Mt 7:22,23; Mt:25:31-46; Rm 2:5-7; Ap 11:18; Ap 20:11-15).
iii. Ademais, deve-se notar que o julgamento dos ímpios é descrito como um concomitante da parousia e também da revelação (II Ts 1:7-10; II Pe 3:4-7).
iv. Por fim, deve-se ter em mente que Deus não julga as nações como nações quando estão em jogo questões eternas, mas somente indivíduos.
c.4 O Juízo Final é Desnecessário
Alguns consideram inteiramente desnecessário o juízo final, porque o destino de cada ser humano é determinado na hora da sua morte. Contudo, seu propósito é, antes, expôr diante de todas as criaturas racionais a glória declarativa de Deus num ato formal e forense que, por um lado, engrandecerá a sua santidade e justiça e, por outro lado, engrandecerá a sua graça e misericórdia. Ademais devemos ter em mente que o juízo do último dia será diferente daquele que ocorreu na morte de cada indivíduo em mais de um aspecto. Não será secreto, mas público; não será a um só indivíduo mas a todos os homens.
V. O ESTADO FINAL
a. O estado Final dos Ímpios
a.1 O Lugar Para o Qual os Ímpios Serão Enviados
Os extincionistas, que ainda estão representados em seitas como os adventistas e a “aurora do milênio”, e ao defensores da imortalidade condicional, negam a existência perpétua dos ímpios e, com isso, tornam desnecessário um lugar de punição eterna.
Mas, estas interpretações certamente não fazem justiça aos dados da Escritura. A Bíblia ensina a existência permanente dos ímpios (Mt 25:30,46; Lc 16:19-31; Ap 14:11). Além disso, em conexão com o tema do “inferno”, a Bíblia emprega expressões indicativas de lugar em todo tempo. Ela dá ao lugar de tormento o nome de geena [ ], nome derivado do hebraico ge (terra, vale) e hinnom ou beney hinnom, isto é, Hinnom ou filhos de Hinnom. Este nome foi aplicado originalmente a um vale sito a sudoeste de Jerusalém. Era o lugar em que os ímpios idólatras sacrificavam seus filhos a Moloque, fazendo-os passar pelo fogo. Daí era considerado impuro e, em tempos mais recentes, era denominado “vale de tophet” (escarro), como uma região completamente desprezada. Fogueiras ardiam ali constantemente, para consumir o lixo de Jerusalém. Como resultado, veio a ser um símbolo do lugar de tormento eterno. Mateus 18:9 fala de ten geenan tou pyros, a geena de fogo, e esta expressão forte é empregada como um sinônimo de to pyr to aionion, o fogo eterno, que aparece no versículo anterior. A Bíblia fala também de uma “fornalha acesa” (Mt 13:42), e de um “lago de fogo” (ou “do fogo”), Ap 20:14,15, que se contrasta com o “mar de vidro, semelhante ao cristal” (Ap 4:6). Os termos “prisão” (I Pe 3:19), “abismo” (Lc 8:31) e “tártaro” (II Pe 2:4) (margem), também são empregadas. A Escritura se refere aos excluídos do céu dizendo que estão fora (nas trevas exteriores) e que são lançados no inferno. A descrição registrada em Lc 16:19-31 é, por certo, inteiramente descritiva deste lugar.
a.2 O Estado No Qual Continuarão Sua Existência
É impossível determinar precisamente o que constituirá a punição eterna dos ímpios, e nos convém falar mui cautelosamente sobre o assunto. Positivamente se pode dizer que consistirá nos seguintes pontos:
i. Na ausência total do favor de Deus.
ii. Uma interminável perturbação da vida, resultante do domínio completo do pecado.
iii. Dores e sofrimentos positivos no corpo e na alma.
iv. Castigos subjetivos, como agonias da consciência, angústias, desespero, choro, e ranger de dentes (Mt8:12; Mt 13:50; Mc 9:43,44,47,48; Lc 16:23,28; Ap 14:10; Ap 21:8).
Evidentemente, haverá graus de punição dos ímpios (Mt 11:22,24; Lc 12:47,48). Sua punição será proporcional ao seu pecado contra a luz que receberam. Mas, não obstante, será punição eterna para todos eles (Mt 18:8; II Ts 1:9; Ap 14:11; Ap 20:10).
a.3 A Duração da Sua Punição
Alguns dizem que as palavras na Escritura “sempiterno” e “eterno” podem denotar simplesmente uma “era” ou uma “dispensação”, ou algum outro longo período de tempo.
Ora, não se pode negar que são empregadas desse modo nalgumas passagens, mas isto não prova que sempre tenham este sentido limitado. Vejamos:
i. Sempre que estes termos são empregados assim, o são empregados figuradamente e, nesses casos, o seu uso figurado é geralmente esclarecido pelo contexto.
ii. Em Mt 25:46 a mesma palavra descreve a duração, tanto da bem-aventurança dos santos como a penalidade dos ímpios. Se esta não for propriamente falando, interminável, tampouco o será aquela; e, todavia, muitos dos que duvidam da punição eterna, não dividam da felicidade eterna.
iii. São empregadas outras expressões que não podem ser postas de lado pela consideração mencionada acima. O fogo do inferno é chamado de “fogo inextinguível” (Mc 9:43); e dos ímpios se diz que “não lhes morre o verme” (Mc 9:48). Além disso, o abismo que separará santos e pecadores no futuro é descrito como fixo e intransponível (Lc 16:26).
b. O Estado Final dos Justos
b.1 A Nova Criação
O estado final dos crentes será precedido pelo passamento do presente mundo e pelo surgimento de uma nova criação (Mt 19:28; At 3:21; Hb 12:27; II Pe 3:13; Ap 21:1).
Muitas vezes é levantada a questão sobre se essa criação será inteiramente nova ou se será uma renovação da presente criação. Os teólogos luteranos apóiam fortemente a primeira posição, recorrendo a II Pe 3:7-13, Ap 20:11 e Ap 21:1; ao passo que os teólogos reformados (calvinsitas) preferem a segunda idéia, para a qual encontram apoio em Sl 102:26,27 (Hb 1:10-12), Hb 12:26-28, Mt 19:28; At 3:21; II Pe 3:13; Ap 21:1; Rm 8:18-23; Is 45:12,18.
b.2 A Habitação Eterna dos Justos
A Escritura apresenta o céu como um lugar. Cristo ascendeu ao céu, o que só pode significar que ele foi de um lugar para outro. Além disso, diz a Escritura que os crentes estão dentro, enquanto que os incrédulos estão fora (Mt 22:12,13; Mt 25:10-]12). A escritura nos dá motivos para acreditarmos que os justos herdarão, não somente o céu, mas a nova criação inteira (Mt 5:5; Ap 21:1-3).
b.3 A Natureza da Sua Recompensa
